Crédito Imagem Capa: Robert Richard

Como nasce um Estado

Os três fatores principais que tornaram inevitável a criação de Israel.

Por Ana Paula Alfano - Revista VEJA
access_time 27 set 2019, 14h17

O movimento sionista, o caos instaurado em territ√≥rio palestino durante o Mandato Brit√Ęnico e a matan√ßa generalizada de judeus ao longo da 2¬™ Guerra Mundial.
Basileia, Su√≠√ßa. Agosto de 1897. Na entrada da sala de concertos do Cassino Municipal, uma enorme bandeira branca e azul tremulava, saudando os participantes do Primeiro Congresso Sionista Mundial. Concentravam-se ali cerca de 200 delegados de diferentes organiza√ß√Ķes, representando 20 pa√≠ses.
Um deles era o jornalista Theodor Herzl, judeu de origem austro-h√ļngara. Ao final do encontro, Herzl escreveria assim em seu di√°rio: “Na Basileia, eu fundei o Estado Judeu. Se eu dissesse isso em voz alta hoje, receberia como resposta uma gargalhada universal. Mas, se n√£o em cinco anos, certamente em 50 todo mundo vai saber.” As anota√ß√Ķes do jornalista se revelariam prof√©ticas. Afinal, aquele congresso, que lan√ßou as bases do sionismo pol√≠tico, havia tra√ßado um plano concreto para a cria√ß√£o de um Estado judeu na Palestina – algo que s√≥ ocorreria de fato meio s√©culo mais tarde, em 1948.

O mais importante documento produzido durante o encontro foi o chamado Programa da Basileia. Ele previa que o sionismo teria como prop√≥sito central estabelecer um lar seguro para o povo judeu. Esse objetivo seria alcan√ßado, principalmente, por meio das seguintes a√ß√Ķes: a promo√ß√£o de assentamentos judaicos de agricultores, artes√£os e comerciantes em territ√≥rio palestino; a organiza√ß√£o de todos os judeus em grupos locais ou gerais, de acordo com as leis dos pa√≠ses em que viviam; o fortalecimento do sentimento e da consci√™ncia judaica; e medidas para obter o apoio das grandes na√ß√Ķes, necess√°rio √† concretiza√ß√£o do plano.

√Äquela altura, Herzl j√° era uma das mais influentes lideran√ßas do movimento sionista, cujo nome deriva da palavra sion (“elevado”, em hebraico). Tamb√©m conhecido como nacionalismo judaico, esse movimento defende, desde a sua origem, o direito dos judeus de ter uma p√°tria na regi√£o que a B√≠blia chama de “Terra de Israel”. O jornalista havia se convencido dessa necessidade tr√™s anos antes, em 1894, quando foi designado para cobrir o caso Dreyfus na Fran√ßa.
Naquela ocasi√£o, um oficial do ex√©rcito franc√™s – o judeu Alfred Dreyfus – foi injustamente acusado de espionagem em favor da Alemanha. O julgamento, baseado em documentos falsos, acabou em condena√ß√£o – um epis√≥dio visto por muitos como xenofobia e antissemitismo expl√≠citos. Impactado pelo desfecho do caso, o jornalista escreveria em 1896 o livro O Estado Judeu, no qual sentenciava: “Se as na√ß√Ķes escolhem n√£o nos absorver, devemos construir nosso pr√≥prio Estado”. Era a funda√ß√£o do sionismo moderno.
“√Č importante enxergar esse movimento n√£o como um fen√īmeno isolado, mas como o resultado de um contexto muito mais amplo”, diz o historiador Michel Gherman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “O nacionalismo estava em voga em diversas partes do mundo, principalmente na Europa.” Era o que acontecia, por exemplo, na It√°lia e Alemanha, que se reunificavam e emergiam como poderosos estados-na√ß√Ķes. “A diferen√ßa do sionismo √© que os judeus pretendiam se estabelecer como na√ß√£o em um local diferente daquele em que viviam, uma vez que estavam espalhados.”

Promessas ao vento
Desde o seu surgimento, o sionismo – com suas diferentes correntes – foi ficando cada vez mais forte e costurando alian√ßas. Em 1917, o movimento ganhou um apoio importante: a Declara√ß√£o Balfour. Enviada ao Bar√£o Rothschild, l√≠der da comunidade judaica do Reino Unido, pelo secret√°rio brit√Ęnico Arthur Balfour, ela assinalava a promessa do pa√≠s de ampliar seus esfor√ßos para a cria√ß√£o de um “lar nacional judeu” na Palestina caso o dom√≠nio do Imp√©rio Otomano sobre a regi√£o chegasse ao fim, o que acabou acontecendo durante a 1¬™ Guerra Mundial (1914-1918). Vencedores ao final do conflito, Fran√ßa e Gr√£-Bretanha fizeram o que se espera de pot√™ncias colonialistas: dividiram o Oriente M√©dio entre si. Assim surgiram os mandatos – franc√™s na S√≠ria e no L√≠bano, brit√Ęnico na Palestina e na Mesopot√Ęmia. “Eles funcionaram bem em algumas regi√Ķes”, diz Gherman. “No territ√≥rio palestino, entretanto, as coisas n√£o sa√≠ram conforme os brit√Ęnicos haviam planejado.”

Em 1920, logo no primeiro ano de mandato na Palestina, um motim em Jerusal√©m j√° deixou claro que a vida dos administradores brit√Ęnicos n√£o seria nada f√°cil por l√°. A revolta acabou com a morte de cinco judeus e quatro √°rabes, al√©m de centenas de feridos. No ano seguinte, ocorreria outra revolta na cidade de Jaffa, com resultado ainda mais tr√°gico: quase cem mortos entre √°rabes e judeus. Com os palestinos se sentindo prejudicados pelas promessas feitas aos judeus na Declara√ß√£o Balfour e os sionistas cada vez mais impacientes, ansiosos pela cria√ß√£o de um Estado judeu, a situa√ß√£o foi se complicando. “Para a Gr√£-Bretanha, era dif√≠cil suportar a press√£o e a viol√™ncia dos conflitos”, explica Gherman.
Para Carlos Reiss, coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba (PR), a pol√≠tica adotada pelos administradores europeus nos anos seguintes agravou o caos. E o Mandato Brit√Ęnico, apesar das promessas feitas antes, acabou se tornando o maior entrave para o plano sionista de um Estado judeu na Palestina.

 “Em 1939, o governo de Londres publica o Livro Branco e, quando a 2¬™ Guerra Mundial eclode, os sionistas se veem em um grande dilema. Eles n√£o sabiam contra qual lado lutar.” O tal Livro Branco, entre outras coisas, postergava a cria√ß√£o de Estados independentes na Palestina e limitava a imigra√ß√£o judaica para a regi√£o, al√©m de proibir de imediato a venda de terras para judeus. O resultado foi um aumento da insatisfa√ß√£o dos sionistas, que passaram a enxergar como inimigos declarados n√£o apenas a Alemanha nazista, empenhada em dizimar os judeus, mas tamb√©m a Inglaterra. “No fim, a guerra acaba adiando ainda mais o sonho da cria√ß√£o do Estado de Israel”, defende Reiss.

“E o p√≥s-guerra fica sendo a grande chave para entendermos como esse Estado acabou sendo criado.”
Muitos historiadores entendem o exterm√≠nio de 6 milh√Ķes de judeus no Holocausto como o empurr√£o que faltava para Israel nascer. Reiss e outros especialistas, no entanto, relativizam sua influ√™ncia na cria√ß√£o do Estado judeu (leia mais abaixo). “O que de fato acabou sendo determinante foi a Gr√£-Bretanha n√£o aguentar a press√£o e a onda de viol√™ncia e entregar a decis√£o da partilha √† rec√©m-criada Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas”, diz Reiss. “A quest√£o colonial e a maneira como os brit√Ęnicos conduziram seu mandato s√£o mais importantes.”
No entendimento do historiador Michel Gherman, a Gr√£-Bretanha sabia que a divis√£o da Palestina entre √°rabes e judeus era inevit√°vel, mas n√£o queria ser a respons√°vel por aquela tarefa espinhosa. “Durante seu mandato, os brit√Ęnicos cederam para os dois lados. Tentaram agradar tanto aos √°rabes quanto aos judeus, esperando que eles se engalfinhassem, para tirar proveito dessa situa√ß√£o mais tarde.” O problema, segundo o historiador, √© que tudo fugiu ao controle dos mandat√°rios.

Quando a decis√£o sobre a partilha da Palestina caiu nas m√£os da ONU, a pol√≠tica sionista tomou a frente. “O sionismo trata de autodetermina√ß√£o, de nacionalismo. E nacionalismo √© algo m√ļltiplo”, diz Gherman. “Sempre houve diferentes correntes sionistas, de direita e de esquerda, liberal e conservadora, cultural e religiosa… Mas todas elas tinham na cria√ß√£o do Estado judeu um objetivo comum.” Segundo o historiador, caberia a David Ben-Gurion, o mais proeminente l√≠der da Organiza√ß√£o Sionista Mundial √†quela altura, o papel de arquiteto desse Estado. “Com habilidade, ele foi capaz de misturar e unir todas essas vertentes.”
Em 14 de maio de 1948, seis meses ap√≥s a partilha da Palestina ter sido aprovada na ONU, o polon√™s e sionista socialista Ben-Gurion declarou a independ√™ncia de Israel, tornando-se o primeiro chefe de governo do pa√≠s. “Este √© o direito natural do povo judeu, ser mestre de seu pr√≥prio destino, como todas as outras na√ß√Ķes, em seu pr√≥prio Estado soberano”, dizia o texto da declara√ß√£o. Daquele momento em diante, os judeus estabelecidos em territ√≥rio palestino passavam a ser israelenses.


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